terça-feira, 8 de julho de 2014

B.A. na Copa #47: Oportunismo x Oportunidade

Vexame contra a Alemanha coloca em xeque a forma como passamos a fazer futebol no Brasil

De Belo Horizonte.
Por João Vitor Cirilo.

08/07/2014 - A chuva de críticas pós-vexame da seleção brasileira nesta semifinal da Copa do Mundo vêm carregadas de oportunismo por parte de alguns, que aproveitam para misturar as coisas sobretudo politicamente, mas também é uma grande oportunidade. Oportunidade de repensar uma série de coisas no futebol brasileiro. O tão poderoso gigante se apequenou nos últimos anos, tentando levar com a barriga e esconder problemas técnicos e estruturais apenas com a força da camisa.

Sabe aquela história de que não existe mais bobo no futebol? Então... todos se prepararam. A Argélia quase tirou a Alemanha; a Colômbia voltou à Copa após 16 anos e fez a melhor campanha em toda a sua história; a Costa Rica, aos trancos e barrancos, também surpreendeu; os Estados Unidos são a nação que mais cresce no "soccer"; a seleção chilena, apesar de eliminada pela brasileira, também cresceu. E o Brasil parou.


Foto: Getty Images

Eterna discussão em minhas rodas de conversa é a ausência de jogadores do nível que já tivemos antigamente. Sempre bati na tecla que faltava um Ronaldo, um Ronaldinho, um Romário surgindo por aí nos nossos clubes. Sim, continuamos formando bons jogadores. A prova está aí nos grandes clubes europeus. Temos Neymar, um dos principais talentos, David e Thiago, dois zagueiros mais caros do mundo e certamente entre os cinco melhores da atualidade, além de outros bons nomes. Mas gênios pararam de ser fabricados, pelo menos da forma como antigamente tínhamos. Muito disso, ou quase tudo, porque as categorias de base estão lotadas e dominadas por empresários. Só entra quem tem o famoso empurrãozinho, quem pode comprar seu lugar lá dentro.

O espelho é nosso cada dia mais lamentável Campeonato Brasileiro. Acompanhar as partidas é cada vez menos interessante, até a do seu clube do coração. Basta olhar para as vazias arquibancadas. Nossas equipes estão cheias de jogadores medianos, comandados por treinadores que não entendem lá muito bem o que estão fazendo, apesar de ganharem rios, mares de dinheiro.

Se fosse eu o comandante da CBF (tá aí outra culpada nisso tudo) e me solicitassem um novo treinador para nossa seleção, eu não escolheria ninguém daqui. Me apontem um treinador com qualidade e preparado para assumir um projeto que necessita claramente de uma reformulação?

Bom, resta saber também se a dona CBF está interessada em tal reformulação... parece que não.

Por natureza, também por ostentação das cinco estrelas no peito e pelo rótulo de melhor futebol do mundo, o brasileiro é orgulhoso. Tende a não olhar para o lado, para nossos vizinhos, e buscar qualificação tanto dentro quanto fora de campo. Se aqui falta mão de obra, por que não procurar em outros terrenos?

Lembro perfeitamente de uma entrevista que o Rivaldo deu para um jornalista (que não me lembro quem é) falando que esse blá-blá-blá de "família" é bobagem. Ninguém ganha Copa do Mundo só no peito, na raça e na camisa. Claro que é importante, mas é necessário um algo mais. É necessário um trabalho coletivo. A seleção brasileira mal treinou nestas últimas semanas. Jogava em um dia, folgava outros dois e fazia apenas um ou dois treinos preparativos antes do jogo. Errado.

Seria muito fácil pra mim criticar a entrada do Bernard, jogador que gosto muito e realmente achei que seria boa a entrada dele (até cheguei a postar isso no twitter). Mas tem um porém: o Felipão treinou dois esquemas (Willian ou três volantes) e escalou um terceiro, correto? E não mexeu. Milagre não existe (assim como Copa comprada não existe, tá aí a prova). A passividade do nosso "professor" hoje foi o que mais me impressionou. Faltou criatividade em campo, os atletas falharam, mas os menores culpados são os jogadores.

Aproveito para citar uma frase de um dos caras que admiro em minha profissão, o jornalista Antero Greco, da ESPN. "Gente, somos brasileiros, gostamos da seleção. Mas vamos admitir: está sendo vitória do futebol, de um futebol que um dia já jogamos". É isso. O Brasil já foi o país do futebol. Hoje, não é mais. Mas ninguém disse que não pode voltar a ser. Vence a Alemanha, que faz um trabalho sério e alcançou pelo menos a fase semifinal em quatro Copas do Mundo consecutivas, incluindo uma em casa (e cá entre nós, em cenário bem mais favorável que o nosso).

O "Mineirazo" é sim uma oportunidade. Assim como ninguém é campeão por acaso, nenhum vexame cai no colo de quem não merece.

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